quarta-feira, 10 de julho de 2013

O apego





Pedras guardadas reclamam a distância e a separação – pedrarias montanhosas choram a rústica e bruta extração.

Toda dor que uma criança consegue conter em seus pequenos olhos... suplantada pela dor que não consegue conter... O derramamento incontido de soluços, silenciado nas sombras das celas domésticas... Cruzes, lápides e marcos de cemitérios e depósitos de cadáveres de todo um universo agora tremem com cada ligeiro pensamento de um retorno... à infâmia da dependência.

Direta ou mediada.

Bruta ou sublimada...

Somos o pilar e o pilão. O monolito e a lajota. Distância, separação corrosiva retratada nas entranhas, nas paredes intumescidas da alma. Calma violentada, saídas utópicas para o irremediável. A máxima dor teórica posta em prática e aplaudida. A seriedade do discurso mais hipnótico, condicionando-nos à dilaceração – não podemos negar que nos corrompemos. Permanecemos na mágoa e no pranto saboroso; vertemos irrisórias fontes de esperança requentada. E a reencarnação combatida por parapsicólogos espalhafatosos, histriônicos, ensandecidos de razão e vontade de ver o sangue jorrar.

As pedras nunca mais serão jogadas”, dizem elas. As águas. Não geradas. Uma pulsão pusilânime que aponta para um medo ancestral, hereditário, coletivo nos arquivos da alma. Culpados por isso? Jorrando e jorrados desde sempre e para sempre; catando vida pelas trilhas escurecidas/anoitecidas que conduzem à viela dos minérios.

Cemitérios. Carbonizamos desafetos despidos. Crentes sem um paraíso: pura dor, puro horror, horror puro inexprimível em palavras amanhecidas e dormidas. Cadavérica forma incerta de realçadas feições – são elas; nós bem podemos reconhecê-las; são as vidas reclamadas, exigidas e já destituídas de som, cor, forma e qualquer expressão minimamente familiar.

Não mais correrão as crianças. Lindos contos condicionantes às camas atávicas. O fausto em ornamentos repulsivos de indecoros previstos. Dureza das decisões ensanguentadas dos desamantes.

Não, não podemos crer que somos nós, nem nossas imagens. Críamos em saltos evolutivos, em liberdades de expressão em tempos de opressão autóctone. Mas agora é a dor que vem mostrar seu rosto, pupilas vazadas – olhos arrancados – outras faces que nunca tiveram olhos – bom para elas. Bom nos últimos tempos, nos últimos dias e instantes dos aguardantes impacientes do Armagedom vulcânico tantas vezes citado nas páginas que queimamos nas praças públicas de nossas ridículas e infantiloides vitórias mentais.

Os relicários de minutos produzem sonolências abstrativas. Nada é conforto real. Tudo é fuga descompassada, tudo foge! Porque guardando sonos/sonhos compactados em valises quadridimensionais, bolsas sinistras, sacolas e sacos musguentos – meu Deus! –, corremos em nossa fuga, em nossa dor subitamente acometida, tangidos pela explosiva lembrança do distanciamento jamais esquecido. Tudo em nós, tudo gravado em nosso peito e abdômen, sim, inexoravelmente fazendo-se chamariz do remoído remorso inexplicável, inextrincável – ável. Luminosa expectativa de uma queda interminável.

Nada esquecido, nada banido. As almas e os órgãos internos gemem porque não têm mais força para berrar de desespero. Os externos gemebundam ao retê-lo sem o saber. Abandonamos o Saber.

São as dores do querer. Os amores e o sofrer – sofremos por rimas! E continuamos.

Ah, livrem-me da tarefa de descrever... a fração do colapso... a ação do tempo sobre a pele... luzindo brontossáuricas tormentas arrasadoras de plátanos acetinados, lisos alisamentos consoladores... Por que voltamos aos terrores? Por que vagamos em nossas estradas e estertores? Paraísos impossíveis... Por que nos enganaram tanto desde a infância?

As pedras! Choram. Desde sempre em nós. Voltem, ah! Voltem à sua justaposição inercial identitária; voltem sem alarde e sem medida de tempo-regresso, valentes! Ilusoriamente longe, longe em nós, é lá que guardamos os sonhos e os medos, os mais adoráveis segredos que nos sustentam todos os dias... dias de fantasmais utopias. Valentes, valentes nos críamos. Nunca mais...

Nunca mais. Nunca poderemos reter em nós o minério e tampouco a concretização do mistério. Nossos arquivos de ideários – pranteiam e pranteiam como nossas almas desmembradas.

Nosso riso: caudaloso em esfera medianímica. Perdemos o ciso. A dor deixa seu rastro, e seguimos o prazer sobrevivente.

Sigam-me, sigam-me sem receio algum. Confiem: nada prometo – o mundo já deu sua palavra. Será nossa, portanto, a beleza herdada... se apenas pudermos salvar seu sabor vivo e o veículo de sua livre manifestação!

Salve, salve, salve...

(Morri.)








Segue:

O exílio

Nenhum comentário:

Postar um comentário